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  • Erika Pallottino

O luto passa?


O luto passa? Essa é uma questão para muitos enlutados e também para a rede de apoio que acolhe e acompanha alguém querido em sofrimento.

Normalmente quando me fazem essa pergunta, eu devolvo com outra: O amor passa?

Para melhor exemplificar o que eu quero dizer, vou tentar explicar de uma forma mais técnica, porém, clara.

Para essa pergunta, se apresentam duas questões:

1) O que é o luto agudo.

2) Como olhamos o processo de luto.

Luto agudo é o momento do processo de luto onde a dor emocional é sentida através de forte e intenso sofrimento. Se caracteriza por um desinvestimento quase total das atividades cotidianas, das relações interpessoais, dos desejos da vida. A pessoa se sente isolada do mundo e no mundo. Se torna quase um estranho de sua própria vida. A vida durante esse período, na verdade, é feita por recortes de saudades, lágrimas, oscilações que podem acontecer no humor, no apetite, e no sono. É uma etapa onde o enlutado se sente cansado, mesmo sem fazer grandes esforços físicos. O que acontece é que o esforço emocional é grande demais, exaustivo e trabalhoso pois ele precisa aprender a estar em um mundo sem o ente querido que, até aquele momento, o referenciava.

O tópico número 2 deste artigo fala sobre o olhar para esse processo, custoso e dolorido, que é o luto.

Olhamos para o luto como uma reação que vem em resposta ao amor. Só existe reação à perda, composta por afetos como, choque, medo, raiva, incredulidade, desesperança, angústia, sensação de desamparo, entre outros, porque o vínculo que nos liga a pessoa que se foi é muito significativo.

Percebam: eu uso o verbo no presente ---> "o vínculo que nos liga é muito significativo." Essa posição verbal já declara a permanência deste vínculo. Quero dizer com isso que ele não termina.

Sempre digo aos meus pacientes: "A morte tem uma grande força, derruba muita coisa, abala quase tudo, mas não tem a capacidade de destruir o amor." E não tem mesmo!

O laço afetivo significativo, quando estabelecido, é eterno em nosso mundo interno. Amamos na presença e o processo de luto nos ensina a amar na ausência.

É como se fosse necessário fazer uma "arrumação" na dor, uma espécie de "limpeza" no pesar para acharmos no ali no meio, embolado e as vezes confuso, o tanto de amor que existe.

Escolher viver com o amor ameniza o sufoco da dor.

Mas do que é feito esse amor? Das lembranças, dos detalhes cotidianos, das aventuras vividas, das reconciliações estabelecidas, da admiração e da escolha por estarem juntos, do futuro que foi planejado (vivido ou não), dos sentimentos construídos...

O amor é feito do que é simples, do que tece e costura a vida de todo dia, da presença contínua, estável e tranquilizadora. É feito do olhar que acalenta, que acolhe e ajuda a seguir.

Todos esses sentimentos, se conseguirem ser identificados, estão bagunçados no meio da dor. Na "limpeza" da dor, muitas vezes, conseguimos chegar até eles.

Ah, e quando os reencontramos, que alívio sentimos.

É reconfortante a permanência trazida pelo amor.

Então, eu devolvo a pergunta: O luto passa?

Se ele é resposta do amor, não, não passa. Ele vive com a gente, dentro do nosso mundo interno, integrado ao nosso ciclo vital. Ele desperta em datas significativas, ele grita em situações onde lembramos da pessoa amada. Aprendemos a ceder um espaço para essa dor, como se a acomodássemos dentro de nós.

Já o luto agudo, o período gritante, excruciante e devastador, esse sim, deve e precisa passar. Adoecemos por conviver tempo demais com ele. A dor que grita sem dar trégua, desconfigura toda vida e aí fica muito difícil de seguir.


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